Adelaide e Mercedes saem do convento à pressa para irem ao encontro de Gonçalo que se encontrava em convalescença na casa de Mercedes, para lhe dar a boa nova, que Adelaide já não era mais clarissa, que o Amava muito e queria passar o resto da sua vida com ele.
Iam de mão dada pareciam que eram amigas à vários anos, não havia ali qualquer tipo de magoa ou ressentimento.
Estavam alegres, e delas a mais alegre era Mercedes por ser por sua iniciativa que Gonçalo seria o homem mais feliz do mundo, sairia daquela depressão profunda que tinha entrado depois de receber aquela malfadada carta, que lhe pedia para nunca mais ir ver Adelaide ao convento.
O desespero consumiu a sua alma, só ele sabia o que tinha passado nos cinco anos que tinha ficado sem a ver, agora ela pedia-lhe num acto egoísta que passa-se o resto da vida sem beber em seu olhar, não ia aguentar, era uma cruz demasiado pesada para qualquer humano carregar.
Eles andam em passo apresado, e depressa chegam lá. Mas ao entrarem deparam com a cama desfeita sem que alguém lá permanecesse.
Em cima da cómoda um bilhete:
- Agradeço-te por tudo que tens feito por mim ultimamente.
E que sempre fizeste por mim. O Amor que me sempre nutriste por mim, pena que não pode sentir o mesmo, e por isso te peço desculpa.
Nunca foi minha intenção magoar alguém, muito menos as pessoas que gostam de mim.
Mas sempre vivi no passado, ora suspirando, ora recordando os momentos vividos.
Não queria que terminasse assim, mas não tenho mais vida na qual viver.
É ilusão pensar-se que respiro, é ilusão pensar-se que existo, é ilusão pensar-se que sonho, porque estou morto.
Falta apenas meu corpo definhar, a terra chama por mim, e eu não tenho coragem para lhe negar tal pedido. Obrigado por tudo mesmo, beijos.
Gonçalo
Ao ler a carta Mercedes começa a chorar copiosamente, Adelaide solidária logo junta suas lágrimas às dela.
- E agora que fazemos? Disse Adelaide
- Não sei, temos de o procurar, encontra-lo antes que faça alguma loucura. Tenho tanto medo.
- Então despachemo-nos.
- Não queres antes trocar de roupa, tirar esse hábito?
- Não há tempo, temos de encontrar o Gonçalo.
- Tens razão, vamos…
Passam por todos os sítios onde Gonçalo costumava frequentar, a universidade, a taverna da Coxa, seu quarto, a baixa de Coimbra, o penedo da saudade, as margens do Mondego, e nem sinal dele.
Para onde teria ido, o pior estava a cada instante a passar por suas cabeças, a sensação de impotência era tremenda.
Era já quase a noitinha quando um conhecido de Mercedes que encontraram na rua lhe disse que o tinha visto lá para os lados da quinta das lágrimas.
Quinta das lágrimas, palco dos Amores de Pedro e Inês de Castro, era o cenário romântico de eleição de Gonçalo, passava lá sempre que se sentia angustiado ou com algum problema. Ultimamente frequentava mais o espaço por ficar junto ao convento de Santa Clara, onde Adelaide estava reclusa na sua contemplação ao Senhor.
Reza o mito que foi lá que Inês chorou pela última vez, enquanto era trespassada pelos punhais dos carrascos enviados de d`el Rei D. Afonso IV, Rei de Portugal e dos Algarves para a mulher que seu filho se tivera apaixonado tresloucadamente, e que possuía perigosas ligações a Castela. Suas lágrimas derramas juntaram-se com o sangue derramado em nome da independência de Portugal em relação a Castela.
De imediato acorreram ao local, em busca de alguma notícia de Gonçalo, corriam tão depressa quanto suas pernas o permitiam.
Gonçalo farto da vida que tinha esbatido num beco sem saiu, tinha escolhido este mesmo local que tinha inspirado Camões na Fonte das Lágrimas, para por termo às suas próprias lágrimas que jorravam de seus olhos, com a água da fonte de Adelaide.
Tira o punhal de família que seu pai lhe tinha oferecido, numa das muitas caçadas que faziam juntos.
A vida começa-lhe a passar diante dos olhos, a sua mãe, seu pai, sua família e amigos, Fandango e a gata Farrusca, Mercedes sempre tão carinhosa e amiga.
Por fim ajoelhado, olhando para o céu, com o punhal encostado a seu peito, pensa nos momentos vividos com Adelaide na sua fonte. Enquanto sorri dessas doces recordações e chora de alegria por as ter vivido, vai espetando cada vez mais fundo.
Seu sangue mancha o chão, que outrora foi pisado por Pedro e Inês. Por fim caie desanimando no chão, sem perder o sorriso.
Nisto chegam Adelaide e Mercedes, tarde demais Gonçalo jaz morto e sorrindo.
Adelaide chora no leito de sua morte como nunca o tinha feito antes, movida por um complexo de culpa tão grande que só queria ir junto com seu Amado.
- Porque fizeste isto me Amor?
Logo agora que estava convencida a tudo deixar, para te Amar.
Não é justo. Por uma questão de minutos te ter perdido para sempre.
Adelaide abra Gonçalo desesperadamente, enquanto cai a carta que lhe tivera mandado dias antes.
- Foi esta carta que te matou. Se existe culpado de estares aqui inanimado esse alguém, sou somente eu. Nunca me vou conseguir perdoar.
Teu corpo ainda está quente, ainda posso sentir o gosto dos teus lábios.
Mas tu já não podes sentir o gosto a morangos silvestres, a que dizias que sabia o meu beijo.
Ó vida ingrata, tanto que sofremos, para agora nada termos.
Vejo que morreste sorrindo, em que estarias a pensar? Certamente nos beijos e abraços que trocamos naquela fonte.
As lágrimas de Adelaide juntam-se as lágrimas de D. Pedro, o sangue de Gonçalo se mistura na mesma terra onde foi derramado o sangue de Inês de Castro.
Adelaide dias mais tarde volta para o convento, onde é recebida pela madre superior. Mas morrendo poucas semanas depois, diz-se que de desgosto, por não suportar a morte de Gonçalo.
O pai de Gonçalo, fez questão de enterrar os dois junto à fonte que brotava águas cristalinas, e que tanto Amavam.
Ainda hoje mais de um século depois, muita gente acorre a tal local para prestar homenagem ao Amor Imortal de Gonçalo e Adelaide.
Fim…
Casados
Há 1 ano
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