A noite cai em Coimbra depois de um dia esgotante de aulas teóricas. A chegada ao quarto alugado na parte alta da cidade, onde mantinha na parede um esboço do rosto de Adelaide, no qual saltava à vista os olhos verdejantes nele pintados, retrato fiel desenhado com incrível habilidade. A chegada é assinalada pelo run run emitido pela sua gata Farrusca, que depois de um dia sozinha no quarto, ficava eufórica por ver o dono e amigo, que aparecia somente para lhe dar de comer e dormir. Farrusca companheira das longas noites de estudo em véspera de exame. Só quando Gonçalo utiliza seu quarto para outra função que não dormir. E ai Farrusca é mais que uma companhia, é para ela que ele repete a matéria intensivamente, numa tentativa de a decorar, embora ela não lhe dei-a muita atenção, preferindo dormir toda enrosca no calor de seu colo enquanto ele lhe fala.
Convenientemente alimentada, e com a sua dose diária de festas e brincadeira, deixa o quarto e procura também algo que preencha o vazio do seu estômago.
As ruas que dão acesso à taverna da coxa começam a pouco e pouco começam a ganhar movimento, de cavalheiros de todas raças, religiões, e diferentes conotações políticas, uma mistura por vezes não muito amistosa, mas o carisma autoritário da coxa evitava quase sempre que se chegasse a vias de facto.
Gonçalo entra, despe o casaco que pendura no cabide da entrada, assim bem como o chapéu que trazia, cumprimenta as pessoas conhecidas, e pede a habitual taça de vinho. Como sempre é servido por Mercedes, uma linda e esbelta “portuguesa de Olivença” que devido ao etnocídio levado a cabo por aqueles que se dizem “nuestros hermanos” mas que não passam de usurpadores de parte do território português. Que meses antes tivera assentado arraiais por aquelas bandas. Moça de fino traço, que se viu obrigada a ingressar em tal vida. A sua família de origem nobre tinha perdido tudo, com a ocupação ilegal de Olivença pelo exército espanhol em 1801. E apesar dos tratados internacionais assinados para restituir a fronteira original, nunca o fizeram por não serem dignos de respeitar seus antepassados, mais interessados em exterminam a cultura de um povo.
Seus pais quiseram dar-lhe nome português, que não foi aceite pelo governo espanhol, devido a sua politica de apagar seiscentos anos de história de presença portuguesa naquela cidade.
Sem nada ter, teve que procurar deste lado da fronteira melhor sorte, um dia apareceu morta de fome à taverna da coxa, a qual a acolheu dando-lhe comida e roupa lavada a troco do seu trabalho. A coxa era uma mulher muito experiente, depressa viu que seria um bom negócio mantê-la a trabalhar na taverna. Nada como uma mulher bonita para arrastar até lá a clientela.
Mais tarde ela veio-se a apaixonar por Gonçalo, que de inicio não lhe achou muita graça por ainda estar enamorado por Adelaide. Mas com o passar do tempo foi caindo no jogo de sedução da bonita espanhola, já que faziam quase cinco anos que tivera a noticia que Adelaide tivera entrado no convento, e desde ai nunca mais tinha recebido uma única noticia que fosse do seu paradeiro. Tinha por todos os meios tentado saber qual o convento para onde a tinham levado, mas todas as suas tentativas de a encontrar tinham sido goradas.
A taça de vinho chega mesmo a horas de brindar à republica, com o seu rol de amigos , quase todos universitários, à excepção de Gabriel de Sousa Mendes que deixara os estudos a meio para ir trabalhar para o jornal. E que de todos era o mais entusiasta da causa republicana e amigo de Gonçalo. Já se tinham metido em mil aventuras, inclusive Gabriel já tinha dado seu sangue em defesa de Gonçalo num desentendimento com monárquicos, em que se feriu num dos braços para o salvar. Para Gonçalo era-lhe tão grato, que chegava a dizer que lhe tivera salvo a vida.
Mas esta amizade tinha sofrido duro golpe com o envolvimento de Gonçalo e Mercedes, estando mesmo ferida de morte. Gabriel era completamente louco por Mercedes, e não compreendia porque o amigo não gostando dela lhe fazia a corte. Mas para seu pesar, ela não lhe ligava a menor importância, fazendo mesmo de conta que ele não existia…
A troca de olhares entre Mercedes e Gonçalo, começa a ser por demais evidente e a irritar ao amigo, que para não apreciar tal espectáculo se retira apresentando uma desculpa qualquer.
A conversa parece animada, o tema são as novas caloiras que este ano entraram, e fazem as delícias de quem passa pelos corredores.
A coxa aparece para perguntar se está tudo conforme, e disfarçadamente entrega a Gonçalo um bilhete de Mercedes.
Este pede licença para ir à casa de banho, e levanta-se como quem não quer a coisa, mas a sua única intenção é ver o que tem dentro do bilhete.
Lava as mãos, olha-se como está ao espelho, um verdadeiro luxo para uma taverna naquela época. Abre e lê:
- Vem ter comigo ao Penedo da Saudade. Quando eu sair.
Fica meio reticente em aceitar, mas ao chegar lá dentro olha para ela deslumbrante, atraindo os olhares de todo o presente, resolve acenar-lhe afirmativamente. Afinal não podia rejeitar tal dádiva de Deus. Quando todos a procuravam, ela engraçou-se logo por ele que não lhe dava a menor atenção, fazia-lhe um pouco de confusão. Mas quem sabe se não era uma boa maneira de esquecer Adelaide, o Amor impossível que lhe foi arrancado do coração por uma mera promessa à Rainha Santa Isabel.
A noite avança indiferente aos ponteiros do relógio, o clima de amena cavaqueira é propício a mais uma rodada e mais outra nunca é demais. Até o debate perder a clareza das ideias, se turvar as consciências, embriagadas que estão nada dizem de útil, enveredam por caminhos triviais e muito calorosos.
Quando dão por eles são os únicos que permanecem, uma casa cheia se esvaziou sem darem conta disso, entretidos que estavam. São eles que impedem a casa de fechar, enquanto que as empregadas já arrumam para estar tudo pronto para a abertura umas horas mais tarde. Até que a Coxa resolve educadamente pedir que compreendam que também precisam de descansar, por favor para se retirarem que amanhã abria outra vez.
E assim foi cada um cambaleando para seu lado. Lá fora já estava Gabriel a tremer de frio, que esperava a saída de Gonçalo. Foi um alívio quando o viu sair sozinho, sem a companhia da bela Mercedes, mas pelo sim pelo não resolve segui-lo para ver se ia logo para casa.
Gonçalo toma o caminho habitual para casa. Quando ia já a meio lembra-se do que havia combinado, e inesperadamente muda de rumo para espanto de Gabriel. Que pensa:
- Onde irá este agora, com uma bebedeira desta? Não há mais nada aberto a esta hora. É melhor ir atrás dele, ainda caia para ai. Preocupado com o amigo.
Chega ao penedo da saudade já lá estava Mercedes, o que enfurece Gabriel.
- Pensava que já não vinhas!
- Claro que vinha. Só fui levar um amigo a casa que bebeu de mais.
- Ah, está bem. Mas que tu também precisas que te levem a casa.
- Eu? Não eu estou bem… Enquanto profere estas palavras, tem uma enorme nauseia e não consegue acabar a frase. Enquanto Gabriel ri atrás dum arbusto.
- Bem, estou a ver que sim.
- Não te preocupes isto passa…
- Agarra-te a mim vou levar-te a casa e fazer-te um chá… é melhor.
- Isto já passa, não há-de ser nada.
- Acredito, mas fico mais descansada se for assim.
E ele agarra-se a ela e seguem para casa dele, para grande desgosto de Gabriel, que não podia acreditar no sucedido. A mulher que amava a levar o melhor amigo para casa.
Entraram e logo apareceu a Farrusca a miar, e a se passear entre as pernas de Mercedes.
- Tão fofinha! Como se chama?
- Farrusca. E é a minha companhia da solidão do quarto!
- Bem aqui não tens nada em que possa fazer o chá?
- Pois não, mas fica mais um pouco, sempre podemos conversar.
- Está bem. De que falamos.
- De como era a tua vida em Espanha. Como vieste aqui parar?
E falaram de tudo um pouco, dos tempos de criança, da sua chegada, das suas famílias, de pontos de vista comuns, do Amor imortal que Gonçalo nutria por Adelaide, de tudo expuseram a nu suas vidas ali em breves horas.
Até que ela começa a olhar para ele de forma diferente, fixando seu olhar, e quando não é que Mercedes rouba-lhe um beijo, que Gonçalo corresponde de imediato carinhosamente.
Depois apagaram-se as luzes, e ela só saiu no dia seguinte.
Casados
Há 1 ano
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