Três semanas mais tarde. Está Gonçalo ainda a dormir quando ouve o bater de forma insistente do carteiro à sua porta. Não é normal receber correspondência nesta morada, quando recebe é normalmente o seu pai que lhe manda a mesada. Desta vez deve-se ter adiantado, mas já tinha recebido duas semanas antes não podia ser. Tentava pensar o que seria, para tão incomodativa visita, mas não conseguia compreender.
Recebe a carta, vê no remetente de facto é mesmo seu pai, o selo do lacre também é o da sua família.
Abre logo apresado, morto de curiosidade, e ao ler não podia acreditar, seu pai exigia que regressa-se ainda esta semana para conversarem sobre a vida que levava em Coimbra, e mais não dizia.
Tinha sido Gabriel, que escrevera a seu pai, ruído de ciúmes de Mercedes. Numa tentativa desesperada de os separar, resolveu informa-lo da vida que Gonçalo levava em Coimbra. As noites perdidas na taverna da Coxa, o envolvimento em rixas tendo a política como mote, e o mais relevante, o seu mais recente envolvimento com Mercedes de Marialva, uma reles empregada de mesa aos olhos de seu pai.
Ordens do pai não podiam ser contrariadas de modo algum, teria de fazer malas mesmo sem saber porque motivo o pai o havia chamado com tanta urgência.
E assim fez, nesse mesmo dia partiu, a viagem era longa, não havia tempo a perder.
Chegando à Régua, o pai não estava em casa, tinha saído para a quinta, só voltava à noitinha. Foi logo sondando o assunto junto da mãe, que lhe disse nada saber para além de que tinha ficado assim depois de ter recebido uma carta sem remetente.
Pensou logo que tinha de ler essa carta custasse o que custasse, foi então que entrou no escritório onde o pai passava o maior parte do tempo quando estava em casa. À primeira vista estava tudo arrumado em seu lugar, nada de novo embora não entrasse ali à alguns meses. Faltava apenas ver na gaveta da escrivaninha, que estava trancada. Foi então que se lembrou de quando era mais novo, gostava de mexer nas coisas do pai, e por acaso descobriu na altura onde ele guardava a chave, mesmo por cima de uma estante que continha os livros de registos, na altura precisava de um banco para chegar lá a cima, mas hoje em dia tornava-se completamente desnecessário.
Pegou na chave e abriu a gaveta, lá estava ela até parecia que estava a sorrir para ele, o que continha dentro e que não lhe daria motivos para sorrir certamente.
Não podia acreditar no que seus olhos viam, embora fosse tudo verdade, não podia haver alguém tão mesquinho, para cometer tal acto de deslealdade até para com um desconhecido, aquela letra era-lhe familiar.
Começou a matutar logo que haveria de dizer ao pai, como poderia mudar a verdade dos factos em seu benefício. O pai já não via com bons olhos o seu estudo, se tivesse a certeza que andava metido nessas aventuras todas, seria o fim da sua carreira de médico e político, disso não havia a menor duvida.
Passou a tarde toda a pensar, para quando o pai chegasse para ter as respostas na ponta da língua, se falhasse ou hesitasse um só momento, seria bem possível não voltar a Coimbra nem para buscar as suas próprias coisas.
O pai chegou e mesmo antes do jantar quis falar com Gonçalo:
- Então diz-me lá que andas a fazer em Coimbra?
- A estudar como poucos. E enquanto dizia isto tirou o boletim de notas do último semestre, apesar de pouco estudar, as suas notas eram expendidas.
- Bem, contra factos não há argumentos, as tuas notas são muito boas.
Mas chegou-me aos ouvidos que andavas metido em brigas à conta da política. Eu já não te tinha dito, que não queria que andasses metido com essa gente?
- Tive que me integrar num desses grupos de pensamentos livres, porque tinha um trabalho para apresentar sobre política contemporânea. Tive azar de estar no local errado à hora errada, foi no bar da associação académica poderia ter acontecido mesmo que não fizesse parte do grupo.
- Essa história não me convence, mas está bem…
E também me disseram que andavas metido com uma rapariga qualquer, uma tal de Mercedes de Marialva. Uma espanhola sem eira nem beira.
- Em primeiro lugar, ela não é espanhola, porque quem nasce em Olivença é tão português como todos os outros.
Conheço sim essa rapariga, pois como o pai sabe estou a residir num quarto, e tenho de ir jantar a algum lado. Depois de muito procurar encontrei um sítio calmo e acolhedor onde pudesse fazer a refeição da noite, essa rapariga apenas trabalha lá. Não estou a ver que mal pode haver nisto.
- Espero bem que seja verdade. Vou andar de olho em ti.
Agora vamos mas é jantar, que a tua mãe já ta à espera.
Não querendo tocar mais no assunto com o pai, mas conhecia bem a letra daquela carta, era muitíssimo parecida a de alguém que conhecia muito bem. E seria a parte mais interessada em o ver afastado de Coimbra. Mas era melhor não se meter em mais confusões, a paciência do pai estava por um fio.
Casados
Há 1 ano
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