Gonçalo volta ao convento, para ver Adelaide e tentá-la convencer a sair dali de mão dada com ele, tem esperança de ela reconsiderar a vocação que diz estar a começar a sentir. Que reafirme as promessas de Amor eterno feitas, naquela fonte mágica para os dois…
Já não aguenta mais este estado de coisas, o sentimento que carrega pesa-lhe, o querer profundo sufoca-o, a dor imensa de não a ter trespassa-lhe o corpo fraco de tanto sofrer.
Entra e espera por ela no banco do costume no átrio.
- Olá! De novo a me visitar?
- Olá. São as saudades dos teus olhos.
- Oh! Sempre tão romântico… mas agora tens de compreender que estou casada com Deus.
- Que pai é este que rouba o ar que respiro, a água que realmente mata a sede, o doce de um beijo a seu próprio filho?
- Não sejas assim.
- Que vida cruel…
Responde-me sinceramente, olhando-me nos olhos à pergunta que te vou fazer.
Se não fosse essa promessa da tua mãe, hoje estaríamos juntos e felizes? Responde a verdade.
- Provavelmente estriamos.
- Então ainda temos hipótese, vamos mandar tudo para o alto. Vamos viver este nosso Amor.
- Sabes que não posso.
- Podes sim. Basta quereres, se antes a tua mãe te podia obrigar a permanecer aqui, hoje podes sair agora mesmo se quiseres.
Dá-me a tua mão, sairemos juntos de mão dada por aquele portão.
- Não te vou dizer que não fico tentada, a o fazer. Mentiria se o fizesse, mas a verdade é que não posso. Fiz os meus votos, não posso voltar atrás com a minha palavra perante Deus.
Gonçalo tira do bolso uma rosa, que uma tivera oferecido a Adelaide nas tarde passadas na fonte.
- Guardaste mesmo?
- Tal como te prometi…
- Que linda! Já me tinha esquecido como era linda!
- Um verdadeiro pecado. Acabei me apegando a ela, nunca mais a larguei. Não fiz apenas seu depósito, mas tornei-a apenas minha, venerei-a todas as noites de solidão.
- E se te é assim tão cara porque a trouxeste?
- Porque apesar de me ser querida, não me pertence. Foi te oferecida com Amor, não te a posso tirar. Trouxe-a para que ficasse contigo, antes não a podias levar para casa, hoje deves ter um quartinho onde possa guardar as tuas coisas.
- Sim. E pega nela com o olho a brilhar.
- Lembro desse dia como se fosse hoje, peguei em meu punhal, e tatuei naquele castanheiro nossos nomes com muito Amor.
- Foi tão lindo.
São essas memórias que alegram os meus dias aqui neste convento de paredes grossas e frias.
- A sério não tínhamos que passar por isto. Porque não dás vida ao nosso Amor?
- Sabes que não posso a minha mãe morria.
- E eu que já não vivo sem teu beijo, sem o toque da tua mão, sem o teu sorriso, sem as esmeraldas que brilham no teu olhar.
- Dizes sempre palavras tão lindas. Quando vais embora fico apensar nelas.
- Mereces muito mais. Que sejam escritos e declamados em teu nome os mais lindos poemas.
- Pára, não mereço nada sou igual a todas as outras raparigas.
- Enganaste és a Santa que vive no meu altar, a mulher que venero.
- Cala-te isso é pecado.
- Se amar-te é pecado, eu quero pecar muito. Se Amar-te é crime quero ser condenado, declaro-me culpado.
Tudo que peço a Deus é poder-te Amar, ser feliz a teu lado. Tudo que lhe peço é tudo que ele não me dá. É por isso que vivo de cosas voltadas para ele, não é justo para comigo.
- Não digas isso. Deus tira com uma mão para dar com a outra.
De certeza que tens mil moças lindas atrás de ti, loucas por te ter.
- Não é verdade. E mesmo que fosse, que a mim me importaria, se és a única que meus olhos beijam, beijam como nunca o foste, beijam-te com desejo, beijam-te com querer, simplesmente te beijam.
- Oh! Que poético.
- Só a poesia me anima, me faz sentir vivo na tua ausência.
Durante os últimos três anos procurei encontrar alguém que te substitui-se. Insanidade minha não existe ninguém com essas qualidades. Nada faz sentido se não for do teu lado. Esforço-me por me tornar uma pessoa melhor, para que possas ver que o Amor pode fazer milagres.
Que a vida pode ser tão mais bela se for sentida a dois, que meu coração precisa do teu para sobreviver, para passar as noites frias e escuras de Inverno.
- Se eu pudesse controlar o meu próprio destino sabes que não estaria aqui.
- Não compreendo porque não te emancipas dessa corrente que te prende, que te faz mal, que te priva de viver o que é mais belo.
- Bem está na hora de me recolher aqui é tudo muito rígido, no que respeita a horários.
- Está bem podes ir, mas lembra-te sempre por mais longe que vaias estás sempre no meu coração
E foi indelével no caminhar, sem nunca olhar para trás desapareceu por uma das portas que dão acesso ao átrio.
Casados
Há 1 ano
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