domingo, 13 de julho de 2008

Capitulo VI

Já em Coimbra. Cidade onde Adelaide se tinha feito clarissa. O mosteiro de Santa Clara fazia parte de uma segunda ordem franciscana, seguidoras de Clara de Assis que tinha visto em São Francisco Assis, o exemplo de vida a seguir. Viviam na clausura e contemplação, sob o ideal de pobreza. O primeiro convento da ordem erguido em Coimbra, ficava situado na margem esquerda do Mondego, situado numa cota muito baixa via-se inundado a quando da cheias do rio. Obrigado a se transferir para uma colina a salvo das inundações, assumindo desde então a designação de convento de Santa Clara-a-Nova.
Gonçalo mal chega a Coimbra e deixa as malas em seu quarto, alimenta a sua gata Farrusca que tinha deixado ao cuidado da senhoria, fazes-lhe as festas do costume, e parte para o convento. No intuito de ver Adelaide, que já não via desde daquele fatídico dia em que estavam juntos na fonte abraçados e apareceu o frade Cortiças.
Escusado será dizer que contou à mãe dela, e o certo é que apesar de Gonçalo passar inúmeras tarde à espera que ela aparecesse para o cântaro encher, ela nunca mais compareceu.
Até que um dia desistiu. Mais tarde procurou o frade Cortiças mas este não se descoseu em nada, apenas disse que era melhor para os dois, que ele desistisse.
Desde então até ontem, nunca mais tivera notícias dela. Mas agora era diferente, sabia em que convento ela se encontrava.
Ia tentar a sua sorte, bater lá a porta, ver se era possível receber visitas.
Foi o que fez, apareceu uma clarissa, que lhe perguntou amavelmente que desejava.

- Gostava de saber se a vossa ordem permite visitas?
- Sim, mas a madre superior tem de dar autorização.
- Bem é que tenho ai uma velha amiga de infância, e gostaria muito de a rever.
- Bom em principio sim. É uma questão de falar com ela. Se quiser posso leva-lo até à madre.
Sim, claro. Ficava-lhe muito agradecido.

E assim foi tentar a sua sorte junto da madre superior:

- Boa tarde, que deseja?
- Boa tarde.
Sou amigo de Adelaide de Marialva, uma das vossas clarissas. Queria-lhe pedir encarecidamente se tal era possível.
- Nós não temos qualquer impedimento a visitas, deste que sejam uma excepção, e não uma regra.
Mas hoje não será possível, ela encontra-se em recolhimento. E alem disso terei de falar com ela primeiro, para verificar da sua disponibilidade em recebe-lo.
E quem devo anunciar?
- Gonçalo Vaz Pereira.
- Passe por cá amanhã, que já tarei uma resposta para lhe dar.
- Obrigadíssimo. E retirou-se.

Mais um dia, sem a ver. De repente é assolado pela dúvida.

- E se ela não me quer ver?

Não sabia o que haveria de fazer no caso de ela lhe dizer não. Seria a desilusão total.
Mas isso era uma hipótese muito remota, sem sentido, claro que o ia receber.
No dia seguinte, quando acordou, tomou banho e preparou-se para o encontro com Adelaide, tanto que lhe tinha a confessar, será que ela o ia perdoar.
Almoçou num restaurante da baixa, para não ir à taverna da Coxa como era habitual, para não se cruzar com Mercedes. E seguiu para o convento.
Voltou a bater à porta, e a mesma cara simpática e alegre respondeu-lhe:

- Ah é o senhor! Tenho boas noticias para sim, Adelaide decidiu recebe-lo e a madre também autorizou. Pode seguir-me.
- Muito obrigado.

Seguiu logo atrás passando pelos corredores que davam acesso ao átrio, onde se encontra a sua paixão.

- Olá Gonçalo!
Que saudades, há quanto tempo?
Então o teu bloco?

Perante isto Gonçalo, abana a cabeça como quem diz que não o trazia.

- Oh! Vou lá dentro pedir um.
- Não é necessário…

Ele ficou boquiaberta, e feliz por ele ter voltado a falar.

- Que bom! Recuperaste do susto que apanhaste em criança. Voltaste a falar, isso é maravilhoso.
- Nem tanto…
- Como assim?
- Eu, quando te conheci estava afónico, derivado à desidratação pela qual tinha passado. Depois não consegui dizer-te a verdade, embarquei na mentira. Espero que algum dia me possas desculpar.
- Quem sou eu para te julgar? Muito menos sou para te condenar. Cabe a Deus avaliar cada um.
- Eu sei. Mas a minha alma só apaziguava com o teu perdão.
- Não seja por isso. Eu perdoo-te.
Também te queria pedir desculpa. Nunca mais disse nada, não tive coragem. Talvez porque saberia que virias à minha procura.
- E isso importuna-te?
- Não é isso, não me interpretes mal, não foi isso que quis dizer. Sabes estou aqui em recolhimento, a tentar atingir um novo estado para a minha vida.
Mas estou muito feliz por te ver, afinal passaram cinco anos. Sabes que sim.
- Para mim, o meu rosto pode ter mudado, pode estar mais estragado pelo tempo que passou, mas o sentimento nada mudou, não sofreu a menor alteração. Hoje Amo-te tal como ontem e isso nunca vai mudar, aconteça o que acontecer.
- Também gosto muito de ti, mas já me conformei com a vida que levo aqui.
Peço-te desculpa por tudo, agradeço-te imenso tudo que fizeste por mim. Mas agora a minha vida é outra, mudou entendes?
Não podemos mais viver este Amor, tenho de cumprir os votos.
- Não me conformo. E as juras de Amor eterno que fizemos naquela fonte? Que vou eu fazer?
- Uma vez li que as juras de Amor, as leva o vento. O Amor é imortal enquanto dura, e o nosso foi lá atrás, um sonho lindo que passou. Ficaram as boas recordações, das tardes de Outono ensolaradas.
Foi tudo perfeito, mas tens de compreender que acabou. Procura uma vida nova, um coração novo, um novo Amor. Quero que sejas feliz, não mereces sofrer.
- Vinda de ti até a dor é boa. Amo-te tanto Adelaide.
- Não digas isso…
- Mas é verdade, tudo que tu tocas vira sagrado.
- Pára por favor!
- Está bem, não falo mais se me pedes obedeço.
- E como estão todos? Tenho me lembrado muito do Fandango, que cavalo especial aquele, só lhe faltava falar.
- E sabes alguma coisa da minha mãe, já não a vejo à um ano, altura da sua ultima visita.
- Posso tentar saber alguma coisa dela para ti.
Sabes agora vivo e estudo aqui em Coimbra. Posso-te visitar sempre que queiras.
- Sempre conseguiste entrar para medicina?
- Sim, o meu sonho está-se a realizar, daqui a uns anos serei médico como sempre sonhei. Isto se o meu pai não me impedir.
- Fico tão feliz por ti.
- Eu sei. Obrigado.
- Bem tenho de ir, aproxima-se a hora das orações e eu tenho de me retirar. Aparece mais vezes, gostei muito de te ver.
- Eu também, virei assim que a madre o permitir.

E ficou ali sentado vendo a sua musa, desaparecer pelos corredores, feliz, feliz por a ter voltado a encontrar.

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