domingo, 13 de julho de 2008

Capitulo II

Passou um mês de noites cadavéricas, passadas em claro... de tentativas frustradas para esquecer a rapariga do rosto encoberto. Tudo fez por esquece-la, mas tudo foi em vão.
Esquecer Adelaide era tarefa ingrata quando o coração estava sedento por a Amar, parece que quanto mais queria esquece-la mais ela lhe vinha à memória. Nada resultava de facto, tudo o fazia lembrar, desde a coisa mais insignificante até ao acontecimento mais importante.
A sua dor a cada dia que passava em vez de diminuir, agudizava-se cada vez mais, ao mesmo tempo que as saudades se tornavam insuportáveis. Tornando-se inevitável um novo encontro desta vez tudo menos casual, naquela mesma fonte.
Vê-la de novo, talvez até lhe contar que não era deficiente auditivo, e que estava a gostar dela.
Mas para quê? Se ela estava a pouquíssimos meses de ingressar no convento de freiras, como lhe havia confirmado o mendigo, e conforme era vontade de sua mãe.
Que dilema, não saber o que decidir, se ouvir a voz da razão ou do coração.
O ritual de adormecer ao pensar como seria o seu rosto, e o acordar tornava-se tão mais doloroso por nem seus contornos saber.
Quando um belo dia passeava, já perto dos campos que levavam à fonte de Adelaide, não resistiu à tentação de fazer um enorme desvio, para tentar ver a musa dos seus sonhos.
Mas desta vez foi preparado, munido de caneta e bloco para com ela poder comunicar.
Pois não sabia como lhe dizer que tudo não passou dum enorme equivoco, por outro lado não queria que ela ficasse com uma falsa impressão dele, que fez de propósito para se aproximar dela. E como seu Amor era totalmente impossível, nem valia a pena perder tempo, a se explicar perante ela, acabar com a boa imagem que ela tem de si. Para quê? Se ela daqui a uns míseros mesitos estará enclausurada, cumprindo a pena que sua própria mãe a condenou.
Como a vida dá voltas e voltas, quem iria dizer que este rapaz ia gostar de alguém sem que seu rosto pudesse apreciar.
A galope seguiu na companhia do seu fiel amigo Fandango, um cavalo que quando ainda potro, seu pai estivera para o abater por ter uma ferida numa das patas, que se julgava incurável, e que fazia o animal estar numa lenta agonia. Foi a intervenção de Gonçalo que estava muito apegado ao animal, que o impediu, foi o único que acreditou que a recuperação era possível como mais tarde se veio a confirmar. Quando já ninguém acreditava, eis que surge curado. Sendo hoje o único cavalo que monta, dos muitos que ostentam o brasão dos Vaz Pereira em seu dorso.
Como todas as tardes Adelaide vai com o seu cântaro à fonte, quando segue pela vereda que dá acesso à fonte, ouve o relinchar de um cavalo, e logo pensa se tratar do jovem de bonitas feições do outro dia. Quer muito que seja ele.

- Espero bem que seja ele!
Preciso tanto falar com alguém que não seja a minha mãe. Não é que não goste de falar com ela, mas é diferente!
Alem dela só tenho o frade Cortiças, que me vem ver uma vez por semana, para me preparar para os votos.

Ao ver que é Gonçalo, liberta um dos seus sorrisos por detrás do véu.
Ele chega e logo a cumprimenta como um verdadeiro cavalheiro, fazendo-lhe uma vénia e beijando-lhe a mão respeitosamente. E faz-lhe sinal para que se sentem no resguardo da fonte.
Para grande espanto e entusiasmo dela, ele tira um bloco e caneta da algibeira.

- Uhm!!! Que grande ideia assim podemos falar os dois. Eu falo e tu escreves. Como te chamas?
- Gonçalo Vaz Pereira.
- És da família dos Vaz Pereira da Régua?
- Sim…
- Oh! A minha mãe fala muito do teu pai, diz que é um homem muito rico. E perdoa-me a inconfidência, diz também que é muito mau. Será verdade?
- Assim tanto também não, mas sim é um tanto ou quanto rude com as pessoas com quem lida.
- Diz também que têm uma enorme casa na Régua, e uma quinta enorme no Douro vinhateiro. Será também verdade?
- Sim, tirando a parte do enorme, porque também não é assim tão grande quanto isso. Mas é grande, demorarias meio dia para a atravessar a cavalo em galope acelerado.
- E tu trabalhas lá?
- Não, eu estudo no liceu de Coimbra. O meu sonho é um dia vir a ser médico. Mas receio não ser possível.
- Porquê?
- O meu pai quer que eu siga as suas pisadas, que cuide dos negócios da família e da quinta. Mas o que eu gostava mesmo era de ir de terra em terra, ajudar as pessoas, através da medecina…
- Sei, como frade Cortiças? Ele também anda de aldeia em aldeia a ajudar as pessoas.
- Bem é um pouco diferente, ele cuida da alma, eu proponha-me a cuidar do corpo.
- Pois!!!
- Queria-te pedir uma coisa muito importante para mim.
- Então pede logo!
- Se podias levantar o véu nem que fosse só por um instante?
- Bem sabes que não posso. Porque é uma promessa da minha mãe, que tenho de cumprir.
- Eu acho que só somos obrigados a cumprir aquilo que de facto nos comprometemos a cumprir por vontade própria.
- Sim eu sei, o frade Cortiças também já me disse o mesmo.
Vou pensar, ou melhor já tenho a resposta…
- E qual é? Diz-me…
- Amanhã se tiveres aqui, levanto para ti.
- Está bem, para quem já esperou um mês, não vai ser um dia a mais que vai fazer diferença.
- Agora tenho de encher o cântaro e ir…

E assim fez, encheu o cântaro e saiu apresada, que sua mãe já devia andar à sua procura.
Gonçalo também já não fica muito mais, e segue montando o Fandango. Passando o caminho todo a enumerar a este as qualidades da sua musa. Para ele a viagem de regresso foi inesquecível, parecia que os campos tinham ficado mais verdes, as flores mais coloridas, até os pássaros não paravam de chilrear doces melodias.
O que mudaria depois de ver seu rosto?
Um rosto puro, singelo, casto, virgem de olhares indiscretos como o seu.
Como seria seus traços? Tantas interrogações, que amanhã teriam a sua resposta.
Ali ia ele, confidenciando suas duvidas e incertezas, ao fiel amigo Fandango, como se ele o entendesse e lhe desse sempre os melhores conselhos.
A manhã seguinte chegou cheia de graça, para mostrar as olheiras que as insónias deixaram. Queria lá saber, se hoje era o dia pelo qual tinha esperado o ultimo mês. Se duvidas houvesse que a curiosidade faz estragos, elas já estavam desvanecidas à muito. Pois Gonçalo já não era a mesma pessoa de há tempos atrás, tinha sofrido uma metamorfose que só o Amor é capaz de conseguir. Uma viragem de cento e oitenta graus na sua vida.
Antes era um rapaz super activo, brincalhão, sempre bem disposto e a matutar traquinices. Mas desde que tinha tomado conhecimento do triste fado de Adelaide, nunca mais tinha esboçado um sorriso, tinha-se tornado numa pessoa fechada, introvertida e introspectiva, voltado para dentro, para si mesmo, sem interesse algum pela vida, pelo mundo exterior. A não ser pela rapariga do rosto misterioso, como era conhecida ali na zona da Régua.
O dia esperado chegou de mansinho… nem chegou a haver noite na qual tivesse dormido. Mas ainda faltava tanto, cada hora parecia anos que custavam a passar.
A ansiedade era tanta, que chegou ao ponto de não aguentar mais e resolver esperar na fonte onde jorravam as águas mais cristalinas. Lá, sentia-se mais perto dela. Feliz por estar perto, mas mais feliz ainda por daqui a pouco estar à distância de um bater de coração de Adelaide. Nem podia acreditar ser verdade…
Ela aparece ao longe nua de seu véu, com os cabelos soltos ao vento, numa miragem sem igual, era mais linda do que alguma vez tinha imaginado. Uma verdadeira Princesinha que aprisionava todos os raios de sol…
Não há palavras que possam descrever, a intraduzível sensação de prazer pela qual seus olhos se tinham vidrado…
Era o sol na sua forma terrena, que aparecera só para ele naquela tarde nublada.

- Olá! Vês que cumpro o que prometo?

Gonçalo estava outra vez paralisado, privado de sentidos, afónico mesmo que quisesse falar não conseguiria, então pega no bloco:

- Agora percebo! Porque usas o véu, és tão linda que até é pecado olhar para ti… O verde em teu olhar são as mais belas esmeraldas que alguma mulher podia possuir, são teu tesouro, agora também um pouco meu, porque nunca mais as vou esquecer, por mais dias que venha a viver…
- Não digas isso, não é verdade. Sou apenas uma rapariga igual a tantas outras. Aposto que já viste muito mais bonitas.
- Com efeito não. Também seria impossível porque mais linda não pode haver.

Ela sorri, e o coração dele para, o seu corpo deixa de ser irrigado, tudo deixa de ser real entra num mundo de fantasia. Pensa em seus lábios acariciar com os seus, pegar na mão dela e rodopiar alegremente. Dizer-lhe o quanto está feliz por estar ali com ela, e o quanto lhe é cara.
Mas de repente acorda e ela já meteu o véu de novo.

- Mas porque voltaste a meter?
- Tenho de ir. A minha mãe ontem ralhou comigo, por ter demorado tanto. Não posso abusar.
Aparece quando quiseres.

Encheu o cântaro, e saiu caminhando com passo apresado, não fosse a mãe achar que tinha demorado.
Enquanto ele a via perder-se por entre a vegetação, ao fundo da vereda.

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